Realpolitiki: diferença entre projeto de lei e projeto de poder

Há um mundo artificial, aquele do projeto ficha limpa. Uma minoria, cheia de boas intenções, senta-se em um discurso ético e de apelo (quem será, meu Deus, contra a ética na política?!), e formatada um projeto de lei inspirado em Torquemada, querendo resolver de uma vez por toda a corrupção eleitoral e afastar os políticos aéticos da vida política nacional. Para isso, ingenuamente minam uma garantia fundamental conquistada na sociedade ocidental contemporânea, que limita o poder de disposição do Estado sobre a vida dos indivíduos: o princípio da presunção de inocência. Amanhã ou depois, não sabemos ao certo até onde poderá ir essa viragem hermenêutica, que transforma as garantias individuais em um grande estorvo. O que a Constituição de 1988 criou de proteção individual, após os anos de chumbo, alguns democratas querem ver esvaziada. Hitler soube muito bem usar essa lógica; Chavés, na bolivariana Venezuela, também.

No mundo real, porém, Realpolitik, voltada para as suas exigências práticas, para o resultado a qualquer custo. Enquanto a turma dos fichas limpas se regozija com a ingênua grande revolução causada na política brasileira, os atores políticos se preocupam em exercer o que mais gostam: o poder. E montam os seus palanques, as suas alianças políticas, esvaziando o palanque e/ou o tempo de televisão dos seus rivais, ainda que para isso, como direi?, gastem um pouquinho de tempo e dinheiro.

Cito aqui a política maranhense como exemplo, nada obstante pudesse citar exemplos em cada Estado da federação. O jogo bruto entre PMDB e PCdoB (leia-se, um projeto dito de esquerda) começou na montagem do palanque e na definição do tempo de televisão de cada coligação formada. No meio da disputa, o PT. E não é que o Partido Trabalhista do Maranhão encontrou razões ideológicas para apoiar Roseane Sarney... Josias de Souza (aqui) nos conta essa edificante história política, já na era dos fichas limpas. Aliás, projeto de lei que encontrou em Flávio Dino (PCdoB-MA) um dos seus defensores mais ardorosos. Para ele parece ter sido mais fácil aprovar o projeto de lei dos fichas limpas do que atrair o PT para o seu projeto político:


Assédio dos Sarney faz do PT-MA um caso de polícia

José Cruz/ABr

Até aqui, a discussão era política. O PT do Maranhão decidira, em março, dar de ombros para o projeto reeleitoral de Roseana Sarney (PMDB).

Em votação apertada –87 votos contra 85— a convenção estadual petista aprovara o apoio à candidatura comunista de Flávio Dino (PCdoB).

Desde então, os Sarney pegam em lanças para reverter a decisão. Querem que o partido de Lula reproduza em solo maranhense a junção nacional PT-PMDB.

Em Brasília, José ‘Incomum’ Sarney pôs-se a defender, nos subterrâneos, os interesses da filha-governadora.

Súbito, descobriu-se que o cerco dos Sarney ao petismo não é apenas político. O assédio é, sobretudo, monetário.

Deve-se a revelação à repórter Sofia Krause. Ela levou às páginas de Veja a notícia de que operadores dos Sarney ofereceram dinheiro a petistas.

Notícia detalhada, com datas, nomes e cifras. Descobriu-se que a cotação de um petê maranhense oscila entre R$ 20 mil e R$ 40 mil. Procurada, Roseana se absteve de comentar.

Quatro petês ouvidos pela repórter animaram-se a confirmar as oferta$. Juram que refugaram. Mas um fato indica que alguém pode ter aceitado.

Aportou na direção PT federal um curioso abaixo-assinado. Carrega 98 jamegões. Todos se declaram a favor da aliança com Roseana.

Significa dizer que 13 petistas viraram a casaca. Já não estão dispostos a apoiar Flávio Dino, o rival comunista de Roseana. Devem ter suas razoe$.

O curioso é que o estímulo financeiro já nem era mais necessário. Premido por Lula, o PT federal já havia decidido intervir no diretório maranhense.

A batida de martelo está agendada para 11 de junho, dia em que o diretório nacional do PT se reunirá para dirimir as últimas pendências com o PMDB.

Em afronta à decisão de Brasília, o pedaço do PT que ainda pende para o Dino convocara para este final de semana um “encontro estadual extraordinário”.

Pretendia-se ratificar o apoio ao PCdoB. Em comunicado oficial, o PT federal proibiu a realização do encontro.

Assina o ofício o secretário nacional de Organização do PT. No texto, ele expõe em letras vivas a desorganização do braço maranhense do partido.

Frateschi chega mesmo a mencionar que a pendenga derivou para “ameaças físicas”. Não menciona os argumentos pecuniários dos Sarney.

Neste sábado, nas pegadas do noticiário acerbo, o presidente do PT, José Eduardo Dutra, veio à boca do palco para anunciar que decidiu apurar os fatos.

"Vamos montar uma comissão da Executiva nacional para apurar os fatos e, quem sabe, instruir um possível processo de quebra de ética”.

Quem sabe? A ficha ainda não caiu. Mas o PT do Maranhão não é problema para a Executiva partidária. É caso de polícia.

A fase da política expirou no instante em que, para afagar Sarney, um aliado de conveniência, o PT jogou ao mar Dino e seu PCdoB, parceiros históricos.
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